GAYS E O ASSÉDIO

 Ao usarmos a palavra “assédio” uma série de imagens e conceitos vêm na nossa cabeça. Eu diria que quase sempre associamos o termo a situações sexuais, em que mulheres são vítimas de homens e, geralmente, estes homens estão numa posição hierárquica superior à das mulheres assediadas. No entanto, o assédio não é necessariamente sexual, alguém pode ser assediado moralmente, por exemplo, e ele pode partir DE ambos os sexos PARA ambos os sexos e acontecer nos mais variados lugares.

A mesma “cultura do estupro” que ensina aos homens que eles podem abusar sexualmente ou tratar com desprezo e deboche aquelas mulheres que não estão se portando como “uma mulher digna de respeito” (seja lá o que isso quer dizer na cabeça de cada um deles!), também dita que os homens que “traíram” os “valores da masculinidade” devem sofrer as mesmas punições.

É muito comum garotos que na infância ou adolescência demonstram trejeitos associados aos homossexuais sofrerem assédios morais e físicos. São motivos de chacota de familiares, amigos, colegas, vizinhos e até professores. Apanham não só como forma de “castigo”, mas também como uma maneira de “corrigir” aquele “desvio”. Chegam a ser violentados sexualmente tanto por outros adolescentes (com o mesmo intuito de punir e corrigir o “comportamento transviado”, mas com a diferença de que agora o agressor também se satisfaz sexualmente) como por pedófilos que enxergam naquela criança, cada vez mais tímida e amedrontada devido aos constantes abusos, um alvo fácil para sua perversão.

Ao crescer, irá se deparar constantemente com uma indagação interna causada por aquelas pessoas que perceberam que ele era gay antes mesmo que ele se desse conta: “será que eu sempre fui gay ou me tornei depois dos abusos sexuais?” (aliás, teoria levada bastante a sério por homofóbicos que negam o caráter natural da homossexualidade).

Felizmente, nunca sofri agressões físicas nem sexuais por ser gay, mas xingamentos e chacotas sempre foram bastante corriqueiros na infância e adolescência. Minha professora da quarta série me dizia que se eu tomasse hormônio masculino, minha homossexualidade seria curada.

Quando a pessoa que aos seus olhos é detentora de toda a sabedoria que você tem para aprender diz algo assim, você cresce com a certeza de que ser gay é algo errado e é um comportamento que você deve evitar ou esconder de qualquer forma. Provavelmente ela não sabia que essa técnica foi vasta e inutilmente utilizada durante muitas décadas do século XX em países onde a homossexualidade era proibida, como a Inglaterra, por exemplo. O paciente sofria todos os danos causados por um aumento hormonal desnecessário, mas permanecia com sua libido por pessoas do mesmo sexo intacta (ou ainda mais acentuada, devido justamente a dosagem hormonal excessiva).

 

O assédio sexual e a violência física contra gays devem ser punidos com os mesmos rigores da lei que se punem tais atos contra qualquer tipo de pessoa. Já o assédio moral é claramente fruto de preconceito e o preconceito se origina a partir da falta de informação, portanto, a medida mais eficaz seria fornecer informação à população. Sem dúvida que muito já está sendo feito. No geral, graças a mídia (que também tem sua responsabilidade na disseminação do preconceito), as pessoas estão mais bem informadas sobre o que é um homossexual hoje em dia, do que estavam há dez anos e certamente ainda mais do que estiveram dez anos antes disso. Acredito que colocar na cadeia ou rechaçar financeiramente quem agride verbalmente homossexuais não resolveria o problema a longo prazo.manifestacao-lgbt-homofobia-brasilia-20110518-02-original_EBC

O movimento LGBT ainda é o caçula dos movimentos sociais. Se mulheres, negros e indígenas que já formam um movimento organizado há muito mais tempo ainda sofrem com a ignorância dos demais é uma utopia acreditar que a homofobia (de certa maneira endossada por religiões e pelo Estado) irá terminar neste século. Porém, se com meus vinte e poucos anos eu já consigo perceber, no geral, uma maior conscientização da população, já é possível crer que talvez num futuro próximo menos garotos apanhem, sejam estuprados ou aprendam com suas tutoras que é errado ser quem eles são.

 

Vinicius Martins

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